Elas surgem, invariavelmente. Algumas, de surpresa. N'outras oportunidades, a gente mesmo cava a falta.
E independente de quais sejam, elas trazem um aperto no peito. Aquela sensação de que ela pode ter aparecido num momento inoportuno. Mesmo sendo a coisa certa, surgiu na hora errada.
Neofobia. Amarga. Esquisita.
O que fazer diante do caminho novo? Quem foi o filho-da-puta que esqueceu de comprar o caralho do mapa antes da viagem começar?
E, se você não vive num planetoide com uma rosa na redoma, é muito provável que você precise explicar dessa mudança. E é preciso confrontar toda a miríade de reações possíveis.
É comum magoar alguém p'ra se arriscar mais feliz. Às vezes, no afã de se fugir da dor, é até provável que alguém responda "Não quero você mais feliz. Quero você comigo."
E você de início repudia tal jaez de atitude. E depois se recorda de todas as vezes em que você mesmo já chegou a dizer, ou querer dizer, isso a alguém.
Mesmo que não com essas palavras.
Ah! Também há o tétrico receio de ouvir desse alguém um "Eu não disse?". O que dói como chicote ao nosso brio.
Em certas horas, o inevitável há de ocorrer:
Fechar os olhos. Prender a respiração. E pular de cabeça.
Torcendo p'ra que, lá embaixo, haja ao menos o suficiente de água.
Ponta Negra. Eu tinha 7 anos e cumpria com meu pai a programação de quase todo domingo: caminhar pela praia de uma ponta a outra do orla, subir o Morro do Careca (quem mora em Natal deve calcular quanto tempo isso deve fazer), descer e caminhar até a Barraca da Alice p'ra tomar caldo de peixe.
Durante a caminhada, uma canção que tocava em outra barraca chamou a minha atenção. Era a mesma música que conhecia recentemente, numa versão notadamente distinta.
"Olha, Pai! A música de Michael Jackson!"
E lá vai meu pai explicar que a canção original não era de Michael Jackson. Na verdade, ele havia feito uma versão de algo de 20 anos atrás.
Conheci a tal "música de Michael Jackson" vendo o filme que passou boa parte da minha vida sendo considerado a melhor e mais importante obra do cinema de todos os tempos:
Moonwalker.
A história bestinha de um herói-com-poderes-mágicos-que-com-a-ajuda-de-três-crianças-vence-o-super-vilão-e-salva-o-mundo, é batidíssima. Mas não era, nunca foi e nunca será isso o mais importante do filme.
E isso é óbvio.
O importante era saber onde estavam os clipes mais legais para poder vê-los e rebobinar a fita (eeeita) para vê-los novamente.
E não eram poucos, diga-se de passagem: Bad, Smooth Criminal, Speed Demon, Leave Me Alone... era um absurdo de qualidade técnica e da performance indiscutível d'O Rei.
Se bem que, diferente das outras vezes, comecei pelo final. Para ouvir, agora em outro zeitgeist, a "música de Michael Jackson".
E eu nunca vou me esquecer de como eu ficava embasbacado com tudo aquilo. E de como eu vi Moonwalker de novo e senti o mesmo de 18 anos atrás, quando o mundo todo via aquilo com outros olhos.
De uma época em que uma mulher agarrar na coxa não dizia da depravação de ninguém. Que camisa amarela, camiseta rasgada, jaqueta com penduricalhos e cinturão de campeão de boxe não diziam da homossexualidade de ninguém. Que crianças no backstage não diziam da pedofilia de ninguém.
Ah, vocês lembram da canção que eu me referi no começo?
Era "Come Together".
Carpe Noctem.
P.S: gostaria de agradecer a meu irmão Luiz Victor, de 7 anos, fã de Michael Jackson, que emprestou-me o DVD do Moonwalker. Amo você.
Fim de 2007. Estávamos em João Pessoa, fugindo do Carnatal, hospedados no apartamento de uma amiga.
Por coincidência, no apartamento dessa amiga havia um Playstation, ao qual recorríamos entre uma farra e outra. Mulheres, cerveja e videogame era a tríplice que mantinha nossos dias muito melhores.
Duas coisas eram recorrentes nesse apartamento: 1) aparecer lindas amigas da nossa anfitriã e 2) elas se incomodarem com o fato do videogame estar sempre ligado, alegando que a gente deixava de beber e conversar só porque no mínimo um de nós estaria focado na sincronia entre televisão e joystick.
(O que, inclusive, era um grande equívoco: nenhum de nós parava de beber e/ou conversar por conta disso).
Até que, num determinado momento, uma das supracitadas amigas ficou em frente à televisão, barrando a imagem:
- Vocês ficam jogando aí e não dão atenção p'ra gente!
E, sem titubear, um amigo pressionou o "pause", largou o joystick, olhou fixamente para ela e respondeu:
- Pronto, você tem 100% da minha atenção, agora. O que vamos fazer?
Ela engasgou, gaguejou, desconversou e saiu de frente da televisão. Simples assim.
E esse episódio diz tudo sobre as relações homem-mulher.
Brasileiro que, na verdade, não possui tema. Fala de política, ódio, surto, paixão, arte e crítica social com a mesma naturalidade. Resultado de episódios criativos (ou não), mas totalmente sinceros, mantendo as devidas omissões. O blog é a versão virtual de um caderno preto que estava sempre à mão de quem quisesse - e era esse o segredo para que ele fosse lido por poucos. Como essa e todas as obras, é e não é ficcional. Lembre-se: mesmo um bilhete de um suicida tem seu tempo de obra autobiográfica.